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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sala São Paulo de Visitas

Por uma passarela de madeira escura envernizada, cercada de pequeninas pedras brancas que forram a terra evidente de jardins laterais sem grama ou flores, chegamos do estacionamento (tradicional, ornado com canos vermelhos de água e esgoto e setas amarelas pintadas no chão) ao foyer, cujo piso, este sim, colore a sobriedade do recinto com verdes pétalas ladrilhadas.

Sapatos pretos, a maioria de salto, contrastam com meu par de tênis, também preto, mas com listras brancas e sistema de amortecimento fabricado especialmente para não amassar as flores do foyer. Os músicos passam pelo salão carregando trompetes reluzentes (talvez de ouro mesmo), enquanto senhoras distintas conversam sobre o relacionamento de Michelle e Barack Obama.

As colunas robustas e brancas de base quadrada sobem eternamente. Param apenas para se encontrar em belos arcos, dos quais as pessoas se desvencilham para admirar melhor o grande vitral da cúpula ao centro. Pelos degraus de madeira escura envernizada, os convidados chegamos aos assentos por detrás do palco, o coro.

Minha camiseta encarnada brilha tanto quanto a cauda encerada do piano. As cadeiras de estofado azul-marinho parecem realçar a vivacidade do pano que me cobre o dorso. Felizmente, as luzes amareladas da plateia tornam-se tíbias, anunciando o concerto e desviando os olhares alheios para a verdadeira atração da noite, os músicos de preto.

O respirar fundo do regente silencia o coro, os camarotes e o resto do público que se perde no horizonte. O ranger das cordas dos violinos ressoa pelo teto acústico e arranca lágrimas da poltrona vinte e um. Pude sentir, da dezenove, uma gota cair em meu antebraço. Goteira? Seria muita coincidência. Encharcados os rostos, pausa para o café. E seria novamente eu, vermelho, o centro das atenções.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Subiu aos céls

Nunca fui muito chegado em celulares. O simples vibrar desses aparelhos me causa asco, principalmente quando os guardo no bolso traseiro da calça. Trelentes. Na verdade, nunca gostei de telefones, e agora que eles se tornaram portáteis, minha vida virou um inferno. Sinto a presença constante de minha mãe a cada chamada, por mais que ela não esteja na linha. Me lembro da bronca que levei depois de ter conversado com uma operadora de telemarketing. Comprara, aos sete (7) anos de idade, um fogão industrial 9 (nove) bocas, coisa linda. "Vai tomá no meio do teu cu", ela disse, bastante alterada. O buscopan acabara e as contrações abdominais aumentavam. O sangue fervia e descia. Uma mão se erguia aos céus pedindo explicações, enquanto a outra desferia o tapa ardente. Isso marcou bastante a minha infância, a minha vida, a minha orelha. Pensei em jamais voltar a conversar, pelo menos não por telefone. Até que encontrei, por R$ 120, um telefonino da TIM, preto, com rádio FM. Peguei gosto. Voltei a ouvir as pessoas por frequências moderadas. Tinha, enfim, alguém para conversar. Alguém que não me vendia coisa alguma pelo simples fato de não responder às minhas vontades. Senti-me aliviado, passando a falar com meu celular dentro dos ônibus, táxis e... só. No metrô é difícil pegar FM. Minha vida mudou. O telefone mudou. Você também pode. Ligue. Faça a sua doação. Preciso de um fone de ouvido novo. O lado esquerdo pifou. E daqui a pouco tem a Hora do Brasil.

domingo, 10 de maio de 2009

Bolas Foras

Quinta-feira fui ao Museu do Futebol. Entrei, guardei meus volumes, o Pelé me cumprimentou em três idiomas - entende? entiendes? understand? -, joguei pebolim - porque totó pra mim é cachorro -, peguei meus volumes e saí. Acabou.

Do lado de fora, um angolano comentava com duas mulheres sobre os cartolas brasileiros que não permitiam atletas negros em seus clubes na década em que minha avó andava de bicicleta. Explicou por que o Fluminense é chamado de pó-de-arroz (se você não sabe, vai pesquisar. Tem computador pra quê?), onde ele tinha aprendido português tão bem e por que estava no Brasil.

As pessoas começaram a se aproximar, interessadas no que ele tinha a dizer. Uma multidão o cercou na Charles Miller. O angolano, então, subiu num caixote de tomate que estava ali, tirou um livro preto do bolso e começou a pregar.

As duas mulheres, que antes conversavam com ele, cochichavam e riam escandalosamente. Os demais tiravam fotos, enquanto o angolano sentia seu sangue circular cada vez mais rápido. Uma senhora de 150 cm chegou a pendurar um guarda-chuva no angolano - ele estava com a braguilha aberta.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Crônica aguda

Todos nós somos cronistas em potencial, porque todos temos histórias para contar. O problema é que nossas histórias são muito ruins, sem graça mesmo, e elas geralmente não prendem a atenção do amigo leitor. Então, mentimos.

Repare que os bons cronistas sempre falam de coisas da infância distante - o pé de manga na Rua Jaboticabal, o passarinho que conversava com ele no quintal de casa, os bolinhos de chuva em dias de chuva. Isso na verdade é uma estratégia de marketing, pois cria um vínculo com o leitor de crônica, que geralmente conversa com passarinhos e come bolinho de chuva com o guarda-chuva aberto dentro da cozinha. Todo cronista é um Duda Mendonça em potencial.

Mas nós somos cronistas em potencial, ou seja, nada. Vamos escrever sobre o quê? Sobre a Virada Cultural? Já chega. Eu fui, vomitei no Arouche, meu tio, e voltei pra casa. Acabou.

Repare que os bons cronistas sempre falam de coisas do cotidiano - dos eventos culturais da cidade, da política, das enchentes (eles gostam de chuva). Tudo isso para ganhar tempo. Ou você acha que eles escrevem por prazer?

Mas nós somos cronistas em potencial.

- Boa tarde! - disse a todos do escritório, em meu primeiro dia de trabalho.
- ...
- Boa tarde. - disse a todos do escritório, em meu segundo dia de trabalho.
- ...
- Oi. - disse a todos do escritório, em meu terceiro dia de trabalho e nos demais que se seguiram.
- ...
- Vão tomar nos vossos cus! - disse a todos do escritório, em meu último dia de trabalho.
- Vai você! - respondeu o do canto.

Taí o tema para uma crônica. Pegue agora uma cola bastão, uma cartolina e uma tesoura sem ponta. E enfia tudo no cu, seu filho da puta. Boa tarde e boa crônica.